Carta das Crianças da Amazônia

09 de agosto, 2012 - 08h23

Fábio Costa

O desejo de poder, de projeção e de superioridade, capacidade de uma classe social realizar seus interesses específicos em detrimentos de outros interesses e necessidades, naturalizado em um sistema econômico que prega a acumulação permanente de capital e geração de riquezas para poucos, afeta muitíssimo certas classes. Poder para impor uma verdade, intimidar e garantir obediência, mantendo na submissão crianças, jovens, mulheres e pessoas ingênuas.

Um exemplo claro no Estado do Pará é a construção da Hidrelétrica de Belo Monte, onde as obras mal começaram e as suas primeiras vítimas na cidade de Altamira, já são visíveis, apenas no primeiro semestre de 2011 quatro mil pessoas fixaram residência na cidade e fala-se que a população do município pode saltar dos atuais cento e cinco mil para cento e cinquenta mil pessoas ainda este ano. Como consequência, quem já morava mal, está indo parar nas favelas, barracos em áreas sazonalmente inundáveis assolados por esgoto a céu aberto, mosquitos, doenças e criminalidade.  A vida da população mais pobre de Altamira está cada vez pior, o processo de exclusão elevará o nível de miséria da população de baixa renda, na sua maioria trabalhadora sem qualificação para exercerem atividade no empreendimento. Falta saúde, água, segurança, educação, moradia. Muitos estão sendo despejados ou forçados a sair de suas casas por causa do desemprego, do aumento dos aluguéis e por insegurança, não são respeitados pelos que estão tentando construir Belo Monte. O governo ao invés de atender às reivindicações dos moradores, gasta bilhões com empreiteiras, políticos e multinacionais para destruir a vida da população e nossa região. O mais dramático é que a construção da Usina de Belo Monte não é a primeira experiência em nosso Estado, a construção de hidrelétricas na Amazônia faz parte de um projeto maior baseado na expropriação intensiva dos recursos naturais da região. No caso específico de Tucuruí, entre outras coisas, o passivo social inclui o não reassentamento de centenas de famílias atingidas e o não reconhecimento de categorias, como os pescadores, enquanto atingidos, afirma Hönh. O atual modelo de desenvolvimento amazônico tem na construção de barragens, na concentração da terra, da renda e do poder político e econômico seus pilares e tensiona os conflitos entre a população e as grandes empresas.

Belo Monte assim como os demais projetos já implantados instaura um clima de grande insegurança e um futuro incerto para as populações locais – em especial, a juventude, parte integrante da sociedade, quem mais frequentemente figura entre os atingidos pelos efeitos maléficos do modelo de desenvolvimento do consumo e do mercado, o tão sonhado "avanço" aponta para um processo de destruição sem precedentes. Com o acesso aos bens e serviços negados, uma possibilidade encontrada para a ascensão social é através do crime, que se apresenta para a juventude socialmente excluída pela sociedade de consumo, passando a exercer um novo poder e, principalmente, o usufruto das benesses do consumismo capitalista. Quanto maior a exclusão maior a produção da violência. Na impossibilidade do acesso consentido, novas maneiras de violência são construídas, sem perspectivas de emprego e renda encontram na prática da criminalidade uma alternativa de sobrevivência. Desigualdade social, de certa forma, contribui para o crescimento da violência, pois é um fator responsável pelo crescimento das evasões escolares, aumento nas mortes violentas causadas por armas de fogo, favorece o recrutamento ao crime organizado, além de restringir as oportunidades de uma vida digna. Com a ausência de políticas públicas que busquem resolver tais diferenças, a guerra dos desvalidos contra os poderosos dá-se de maneira desorganizada e violenta, aumentando o índice de assaltos, dependência de álcool e outras drogas, alimentando uma desastrosa realidade em um município que será palco de mais uma arbitrariedade do poder publico em nome do "avanço" e da "prosperidade", para poucos. Essa ação levará uma população inteira a prover recursos para os que detêm condições de pagar, sem sequer deixar na Região e no Estado os frutos de tal avanço, ao contrário, serão os moradores, filhos desta terra, quem colherão os piores frutos do processo de exclusão plantado pelos poderosos desta Nação.

odo esse processo nos remete a uma questão: É comum vermos hoje jovens compondo o aumento da estatística de criminalidade, mas seria isso algo para ser banalizado? Estado, escola, família, igreja, partidos políticos, grupos culturais, projetos sociais... São cada vez mais ausentes na construção de projetos com ações direcionados para esse publico, em contra partida, o tráfico, consumo de drogas, jogos eletrônicos, assaltos, festas de aparelhagens surgem como alternativa. Essa juventude busca acessar alguns bens materiais para sentir-se parte integrante da sociedade, fazendo deste modo uma inversão de valores, precisando possuir para sentir-se parte. A busca do TER nos coloca em desvantagem para a construção do SER. Interessante perceber a falta de investimento para uma categoria tão importante em nossa sociedade. A falta de perspectiva aliada ao desinvestimento em política publica que vise à organização, escola de qualidade, lazer, qualificação profissional, geração de emprego e renda, abre espaço para o aumento da criminalidade e violência por parte dos jovens que passam a servir ao crime, vendo na promessa e possibilidade de retornos financeiros a um curto espaço de tempo a resolução de suas dificuldades, construindo, em seguida, um novo e duradouro problema que os leva muito cedo ao cárcere ou a morte, quando muito, vivem alternando entre fugas e prisões, sem condições de reconstruir a vida, vivendo um segundo abandono, agora explicito e "justificado."

Importante afirmar que a crítica não é ao desenvolvimento, mas a forma como isso se dá e a que preço para Altamira e toda região afetada com a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, ou seria Belo Monstro? Fica claro que a maneira como foi decidida e está sendo executada, compõe formas excludentes de desenvolvimento. Tudo isso nos remete a um olhar especial para a juventude, a necessidade de se fazer um movimento orquestrado entre as redes de serviços, tencionando os poderes de Estado e sociedade Civil objetivando a efetivação de políticas públicas onde quem lucraria seria a população.

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